Discos
Música brasileira? Nova? Criativa? Bem feita? Onde? Mais um bom nome prova que gravadoras, rádios e a indústria é que não querem enxergar. O paulista Curumin acaba de lançar o disco Japan Pop Show que mostra mais que temos tudo isso disponível aqui do lado. Um trabalho autoral, refinado, contemporâneo e de cara um dos favoritos a melhor álbum brasileiro do ano.
Japan Pop Show começa dando pistas que vamos ouvir um disco de DJ Shadow na melhor fase, com uma sonoridade repleta de elementos eletrônicos e a criação de uma ambiência quase etérea, com batidas quebradas e vários efeitos, incluindo vocais. É assim com “Salto no Vácuo com Joelhada”, prosseguindo em menor grau com “Dançando no Escuro”, que conta com participação do redescoberto Marku Ribas. Em “Compacto” ele abre outra janela e volta para o que vem marcando sua carreira, samba-rock (ou sambalanço) de alto nível, cheio de suingue e sem querer soar Jorge Ben, mas não nega a influência. Mesmo clima que volta em “Mistério Stereo”, bela canção que caberia sim num disco de Ben dos anos 70 tranquilamente, com seus violões e letra inspirada. “Esperança” segue um caminho parecido, daquele tipo de música que faz falta na humanidade, com clima alto-astral e palavras que deveriam ser repetidas como mantra “todo mundo quer amor e paz na Terra”.
Curumin é um daqueles caras que não tem vergonha de soar brasileiro nem de absorver influência internacional ao mesmo tempo. Sua presença no exterior começa a ser constante, ao mesmo tempo que entra de vez no circuito de festivais independentes pelo Brasil (Bananada, Calango e Mada), provando que tem um sotaque próprio, que dialoga tanto com o próprio país quanto com o resto do planeta. Em “Kyoto” (que conta com participação de nomes do rap californiano: o duo Blackalicious e o rapper Lateef the Truth Speaker, filho de integrantes do grupo de militância negra Panteras Negras) e “Japan Pop Show” mostra claramente isso, colocando influências de rap e dub, mesclados com sua sonoridade brasileira.
Em “Caixa Preta” convoca B-Negão e Lucas Santtana para um batidão bem produzido e ácido, como deveria ser o tal funk carioca. “Sambito”, com participação do skater Tommy “King of Corn” Guerrero, é quase um samba de gringo, cantado em japonês (referências a suas raízes japonesas recorrentes no disco) e português com groove, guitarras e efeitos. “Fumanchu” fecha com um samba-jazz de responsa, para ninguém duvidar da capacidade de se fazer um grande disco de música brasileira rico e bonito. Mas o que marca a música de Curumin é “Mal Estar Card”, suingaço politizado com direito Cristopher Love soltando as farpas diante da realidade nacional. Além da deliciosa “Magrela Fever”. Curumin é mais um nome que consolida o discurso que vivemos uma nova música brasileira, com sonoridade contemporânea, sem esquecer o que há de bom em nossa música, mas sem querer simplesemnte soar como os velhos mestres. Um olho no retrovisor e a cabeça no horizonte.
Em tempos de tecnologia e misturas, já está se tornando até comum um artista pegar um álbum clássico e reinventá-lo. Foi assim com Dangermouse e seu “Grey Album” um mash-up do “Álbum Branco” dos Beatles com o “Black Album” do rapper Jay-Z. Depois veio o DJ BC juntando Beatles e Beastie Boys. A tendência de misturar sons as vezes opostos, recriar em cima de obras já prontas, ganhou espaço e cada hora surge uma novidade. No Brasil os mash-ups já fazem sucesso em determinados meios, mas agora um grupo de músicos paraenses resolveu ir além e recriou um clássico do Pink Floyd em uma versão bem particular. A idéia surgiu da cabeça de Luiz Félix, guitarrista, percussionista e vocalista da banda La Pupuña, do Pará, que logo convidou o baixista da banda, Fabrício Jomar, para regravar o álbum “Dark Side of the Moon” com pegada paraense, a base de guitarrada, cumbia, lundum, brega e surf music. O resultado é impressionante. Estão lá todos os sons, os detalhes e a sequência das músicas do original, todo o clima, todas as invencionices, toda a viagem do clássico álbum de 1973, numa fidelidade até assustadora. Tudo certinho, como quase se fosse o original, mas é tudo com um tempero especial.
O disco foi gravado com a banda La Pupuña e um time de convidados que alteraram o DNA do disco e injetaram música e elementos paraenses no universo progressivo. Logo no início os sons do carimbó e dos barcos popopô fazem a introdução de “Speak to me Breath” para logo entrar ao mesmo tempo um irresístivel suingado e o espirito do Pink Floyd da década de 70. “On the Run” traz a competência de Pio Lobato e Guilherme Guerreiro do Cravo Carbono. Os sinos e o despertador de “Time” permanecem mas na verdade eles estão substiuídos pelos sinos da Basílica de Nazaré e pelo despertador de Luiz Félix. Cantada por Roosevelt Bala, vocalista do Stress, banda pioneira no heavy metal Brasileiro, com reforço da cantora de brega Denise Lima, a mais conhecida música do disco segue bem fiel até aos poucos se transformar num carimbó pelas mãos percussivas do grupo regional Os Baioaras. Sacrilégio? Pelo contrário, uma homenagem marcante e especial que trafega por todas as faixas do disco.
Quem imaginaria Gabi Amarantos, cantora de Tecnoshow, soltando a voz em uma vesão de “The Great Gig in the Sky”? Mais ainda, a reconstrução de outra clássica como “Money”, que começa alterada com uma base de percussão suingada, segue com as vozes da própria Denise Lima e da vocalista da banda Madame Saatan, Sammliz, e termina desconfigurada genialmente com solos de guitarrada de Mestre Vieira e um transe percussivo paraense. A viagem segue durante “Us and Them”, “Any Colour You Like”, que ganha uma percussão merengue, “Brain Damage”, com direito a risadas sampleadas de Fafá de Belém, e a incrível versão quase lambada de “Eclipse”. É como se o Pink Floyd tivesse gravado o mesmo disco de 35 anos atrás, mas que no sangue de Roger Waters e David Gilmour, além de rock progressivo, psicodelia, texturas sonoras, jazz fusion e art rock, corresse uma sonoridade latina.
Um quem é quem da música paraense atual, com convidados de estilos diversos abrilhando um trabalho de alto nível que já chamou atenção de gravadoras estrangeiras que devem lançar o álbum na Europa. O “Charque” do título se refere mesmo a carne-do-sol, mas também a como é chamada a genitália feminina lá no Pará (daí a capa do disco). Um trabalho para ouvir e reouvir, pegar o original e ficar comparando, notando as diferenças e curtindo a criatividade dos músicos paraenses. Um dos lançamentos mais interessantes do ano desde já.
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Uma das melhores surpresas de 2007 foi o disco “Onde Brilham os Olhos Seus”, que traz a vocalista do Pato Fu, Fernanda Takai, em sua estréia solo provando ser uma das melhores cantoras do país numa recriação de canções gravadas por Nara Leão. Com produção do marido e também parceiro de Pato Fu, John Ulhôa, que também toca todos os instrumentos, o álbum conecta dois grandes momentos da Música Brasileira, dois universos ricos e criativos, a fase áurea de Bossa-Nova e Tropicália e o momento atual, onde produção, composição e interpretação ganham alta qualidade com nomes fora da mídia e do grande mercado. Fernanda Takai dá nova alma a clássicos, como “Insensatez” de Tom Jobim e Vinícius de Moraes e “Com Açúcar, Com Afeto” de Chico Buaque e atualiza lindamente pérolas esquecidas, como “Seja o Meu Céu”, de Robertinho do Recife, um das melhores do disco. Ciente de suas limitações, assim como Nara, Fernanda explora o sentimento através de sua voz doce e pequena. O resultado se encaixou de forma perfeita ao repertório de Nara, como se as canções tivessem sido feito para ela, como em “Canta, Maria” de Ary Barroso e “Diz que fui por ai” de Zé Ketti, outro destaque do álbum. Ao todo são 13 músicas, com versão particulares, numa desconstrução que às vezes causa até estranhamento. Não há fidelidade alguma às versões originais e esse é um dos maiores méritos do trabalho. A bossa, MPB, choro e samba de nomes como Chico Buarque, Tom Jobim e Vinícius de Moraes, Caetano Veloso, Zé Kéti, Nelson Cavaquinho, Erasmo e Roberto Carlos e Ary Barroso se transformam em versões discretas e caprichosamente modernas. Pop, rock, jazz, soul e em alguns momentos até um clima meio ambient music. Além de John, o disco conta com participações de Lulu Camargo, tecladista do Pato Fu, e Roberto Menescal, que gravou as guitarras de “Insensatez”. Em formato digipack e belo projeto gráfico, o CD vale a pena também pelo belo projeto gráfico, que inclui textos de Nelson Motta, letras das músicas e fotos. Co-produzido por Nelson Mota (que lançou a idéia do projeto), “Onde Brilham os Olhos Meus” foi eleito ‘Melhor Disco’ pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), na categoria popular e vai render alguns shows por algumas capitais, inclusive Salvador. Um daqueles discos que vale a pena ter em casa e que nos revela uma nova e bela faceta da carreira de Fernanda Takai.
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Cidadão Instigado – “E o Método Tufo de Experiências” (Slag Records)
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Existem determinados sujeitos que são inquietos e instigantes em sua essência. Entre tantas alternativas de vida, alguns deles resolvem mergulhar no mundo da música e costumam presentear os ouvintes com boas esquisitices. O cearense Fernando Catatau é um desses caras. Desde que lançou os primeiros trabalhos de sua banda Cidadão Instigado ele corrompe as regrinhas da música brasileira. Na verdade nem se importa com elas. Depois de anos tocando alcançou o status de um dos músicos mais importantes e criativos dessa nossa música, pelo menos a do universo que mais importa. Em 2005, foi considerado pela Associação de Críticos de Arte de São Paulo como o melhor compositor brasileiro do ano.
Responsável pela composição, produção, arranjos, voz e diversos instrumentos, Catatau acaba sendo a cara da banda, que criou em 1994 ainda em Fortaleza. Catatau já tocou ou toca com gente como Otto, Vanessa da Mata, Zeca Baleiro, Nação Zumbi, entre outros, mas é no seu próprio trabalho que mostra sua enorme capacidade de criação. Com o Cidadão Instigado (formado por Régis Damasceno, Rian Batista, Clayton Martin e convidados especiais, como Daniel Ganjaman, Maurício Takara e Izaar, entre outros), solta esse petardo que vem tirando do prumo quem já estava se contentando com as repetições, mesmo as mais recentes. “Cidadão Instigado e o Método Tufo de Experiências” altera os sentidos porque é simples. Desnorteia por utilizar elementos de nosso cotidiano, que mal utilizados costumam ser rejeitados, desprezados ou esquecidos. Elementos que aparecem nas letras, melodias, timbres, instrumentos, forma de cantar e que se juntam a elementos mais modernos, como sintetizadores, bateria eletrônica e efeitos.
Ao contrário do quem vem sendo alardeado, não é apenas um disco de música brega no novo milênio. O trabalho da Cidadão Instigado não é tão facilmente encaixável em um tipo de rótulo. Como no primeiro disco, Catatau e a banda subvertem e jogam para o alto qualquer tipo de tentativa de formatar sua música em alguma prateleira. Passeiam por sons psicodélicos, batidas eletrônicas, sonoridades setentistas, ritmos nordestinos e abrem a torneira de um universo particular para experimentar e contar histórias.
Há música brega na música que abre o disco, a belíssima “Te Encontra Logo” e na última “O Tempo”. Um brega moderno que traz uma conhecida sonoridade das mesas de bares. Dor de cotovelo embalada por um ritmo baladeiro com teclados, trechos falados, corinho e letras que falam de romances melodramáticos. “Estou morrendo e tenho medo de só pensar em você/ Te encontro logo a distância/ Antes dela te dizer que já é tarde demais”, na primeira, ou “mas o tempo é um amigo precioso/ que faz questão de jogar fora/ aquela mágoa vencida que ficou/ sofro por não ter pensado em te dar um desconto/ pus o rancor pra cuidar de tudo/ e vi que a vida mudou um segundo/ às vezes choro/ pois sei que não posso deixar que o passado invada meu mundo/ lembrei do perdão e vi nós dois construindo um futuro.” Preciosidade da última canção do disco.
Porém, não é só isso. Como definir “Os Urubus só Pensam em te Comer”, uma excêntrica música retirada da trilha sonora de um curta homônimo. Experimentalismo em cima de uma batida simples, teclados tortos e uma letra metafórica sobre vacas e urubus. Em “O Pobre dos Dentes de Ouro” uma levada mais latina que logo se transforma num samba de terreiro e muda completamente virando uma experimentação sonora com guitarras. Tudo para contar a história de um sujeito pobre que sonha com dentes de ouro para ficar lindo. A viagem em que mostra personagens comuns, mas que parecem invisíveis prossegue em “Silêncio na Multidão”. E ai ele mostra a estranheza de um lugar como São Paulo, que acolhe e assusta. A realidade da cidade grande, cruel e solitária. “Eu vejo as pessoas que passam por mim/ que falam, que ralam, que gritam/ em harmonia e solidão/ dói no coração ver meu povo silencioso”. Como se quisesse acordar quem o cerca do conformismo e passividade reinante. E segue ainda com o rock experimental alucinado “Calma!”, a estranha “O Pinto de Peitos”, o meio reggae-rock enviesado “Apenas um Incômodo”, que dá um recado nada conformado de um discriminado (nordestino em São Paulo? Cantor desafinado?), a bela “Chora, Malê” e a esquizofrênica a la Zumbi do Mato “Noite Daquelas”.
Catatau e sua trupe passeiam por sons experimentais e ousados. Encontram uma forma inteligente de falar de personagens comuns, problemas sociais, preconceito e de um universo simples, até cotidiano, mas que poucas vezes foi apresentado ao mesmo tempo de forma tão criativa e original. Criam sonoridades interessantes e desconcertantes, que aliadas às letras ousadas e criativas resultam nessa pequena obra prima.
tara_code – “Azul e Roxo”

Se o modo neoliberal de ver o mundo comandasse sozinho os rumos da música, artistas como a banda baiana tara_code [assim mesmo, com caixa baixa e underline] não existiriam. Se a música fosse guiada apenas pelas regras comerciais do mercado, “Azul e Roxo”, disco de estréia do grupo, nunca seria lançado. Se existisse apenas um mesmo modo de se fazer música, a arte de compor e tocar não sairia do lugar e ouviríamos sempre a mesma coisa. Este é um daqueles discos que necessitam de dedicação. Não porque seja difícil, mas não dá para ouvir “Azul e Roxo” sem prestar atenção a cada detalhe, sem apreciar com cuidado a sintonia entre a interface eletrônica, efeitos de guitarra e a poética urbana. Um trabalho delicado de produção e repleto de criatividade a cada momento. A dupla Gilberto Monte e Andréa May conseguiu um excelente resultado do que eles vêm desenvolvendo há sete anos. Ousadia, experimentalismo e arte. Sim, música ainda é arte, apesar dos pesares. Um belo trabalho, que prima pela criatividade e por uma sonoridade característica de quem não de importa em agradar a donos de gravadoras ou programadores de rádios. Hermética? De forma alguma. A música produzida pela dupla é até acessível, mas é preciso estar aberto a ouvir algo fora do padrão. Definir a banda não é fácil. No álbum, aparecem músicas dos diversos momentos do grupo, resumindo a trajetória e as diversas influências absorvidas por eles neste tempo. Estão lá o rock’roll, o trip hop, a pesquisa com ritmos, a mistura de timbres e a vivência com o mundo da eletrônica. São dez faixas, algumas delas criadas há alguns anos, outras com a ambiência sonora do que o grupo faz hoje. A produção caprichada, desde a gravação até a parte gráfica, traz como conseqüência um álbum de alto nível e desde já um dos melhores discos nacionais do ano.
Parafusa – “Meio-dia na Rua da Harmonia”

Basta, hoje, uma banda brasileira surgir cantando, em português, temas mais sensíveis, ter um extremo cuidado com arranjos, harmonias e letras, escapar do padrão rock adolescente e injetar algo mais, especialmente influências de música brasileira, que logo é acusada de copiar o Los Hermanos. Mas não é bem assim, sempre isso acontece quando uma banda nada contra a corrente, faz muito sucesso e transforma as influências comuns de uma geração em uma música própria. Quem aparece depois paga o preço.
A banda pernambucana Parafusa pode se passar, para os menos atentos, como fruto do trabalho dos barbudos cariocas, mas não é exatamente isso. Com um trabalho sincero, bem feito, criativo e com personalidade, os recifenses estão lançando seu primeiro disco, “Meio-dia na Rua da Harmonia”. Talvez brincando com o ditado, eles realmente colocam a harmonia no lugar da amargura. E não é só a harmonia musical, mas também alcançam uma harmonia das diversas influências que aparecem no disco. Uma combinação bem sucedida de elementos diferentes, que relacionados produzem uma sonoridade particular, mesmo que não tão eficiente em todos os momentos do trabalho.
Mas, se colocam de lado a amargura, sustentam um clima melancólico, falando da perda de amores ou da vida urbana, através histórias banais de personagens comuns. Histórias que podem ser de qualquer morador das ruas do Recife ou de qualquer cidade. Como em “Parece um Filme”, que conta a dura vida de um tal de Zé, ou em “No Asfalto” que fala de uma tal de Maria, figura comum que é atropelada e morre no asfalto numa terça-feira de sol.
Trazendo influências comuns de bandas contemporâneas, a Parafusa vai além e inclui elementos pouco usuais. A base do som da banda é rock, indo de Beatles a progressivo, com alta dose pop, clima circense e muita influência da boa música brasileira, um pouco de samba ali, música nordestina acolá. No molho aparece também um pouco de frevo, ritmo tipicamente pernambucano, que nem o Mangue Beat soube valorizar. A banda aproveita e bem. Acabam meio que modernizando marchinhas de frevo, como em “Longa Canção sobre um Grande Amor”.
E o Carnaval aparece também nas letras, mantendo o clima melancólico do fim da festa (outra semelhança com o Los Hermanos). Como em “Última Troça” que diz “Foi, carnaval se foi/ Me levou você/ Carregou consigo/ Foi, mas o que ele fez?/ Me deixou aqui só com os meus sentidos/ E se foi, e se foi”. Ou em “Marchinha”, que fala “É carnaval, todos fazem barulho/ Eu gostaria de poder cantar/ E lhe encontrar, lhe abraçar/ É você na fantasia?/ Esta cidade parece um poema/ Em qual esquina você pode estar?/ Atrás da orquestra?/ Nesse cordão?/ Sentada em alguma janela?/ Pulando no meio da multidão?/ Toda alegria no ar/ Espero e hei de encontrar você/ No carnaval”.
Além do básico, guitarra, baixo e bateria, o grupo utiliza outros instrumentos menos usuais numa banda de rock para construir sua musicalidade particular. Estão lá teclados, mas também escaletas, percussão e piano, dando um clima próprio. “Meio-dia na Rua da Harmonia” ajuda a comprovar o bom momento criativo da música brasileira, apesar de distante das rádios e da grande mídia. Uma pena.
Belasco – “Alexei”
O noise de guitarras, as belas melodias e as letras em inglês marcam o indie rock brasileiro. O power trio de Fortaleza Belasco é um dos frutos desta vertente dos herdeiros do pós-punk, mas ao invés de optar pelos já tradicionais muros de guitarras, a banda prefere adentrar o universo das canções. “Alexei” reúne em pouco mais de 26 minutos um apunhado delas, que além do indie rock, traz ecos de folk e garage rock. São 10 músicas que conquistam fácil os amantes das boas melodias, que em momentos remetem a Velvet Underground, REM e Neil Young. Destaque para o trabalho de guitarra, com belos timbres tirados por Fábio Rodrigues de seu equipamento acústico e que aparecem limpos na maioria do disco. Há também bons momentos, onde a distorção ganha espaço. A combinação do trabalho melódico e os momentos mais ruidosos aparecem em músicas como “Alexei” e “Intermission”, que alternam momentos doces, dançantes e calmos com uma parede ruidosa e suja de guitarras. Destaque também para “Dry”, que traz uma admirável parte instrumental, com a guitarra chorando, combinado com uma das melodias vocais mais belas do disco. O vocal, também de Fábio Rodrigues (que decidiu abandonar a banda após a turnê que rodou vários estado do pais), reveza os tons graves com bem colocados falsetes em letras em inglês que falam de realidade e ilusão. A cozinha certeira e competente (com George Araújo na bateria e Oni Matos no baixo) dá sustentação às canções, guiando a banda tanto nos momentos mais calmos quanto nos mais sujos. Rock para se ouvir o tempo inteiro.
Sangria – “Sangria” (EP)
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Raiva, desespero, dor e agonia. Poucas vezes essas sensações conseguem ser transmitidas com fidelidade. Seja no cinema, onde filmes apelam para o lugar-comum, não assustando nem criança e provocando riso, seja na música, com bandas que abusam de clichês e se tornam piada. Tal qual nos melhores filmes de horror e suspense, a banda Sangria, uma das boas revelações do ano em Salvador, cria um universo angustiante, sufocando o ouvinte com uma música pesada e densa e letras pessimistas que falam de um mundo abjeto, desprezível e sem futuro.
Se você está acostumado a ver bandas que usam o lado escuro da alma humana como marketing, assim como em filmes com os Jasons da vida, esqueça. O caso aqui é sério e pega na veia. Possuídos pelo capeta, soltando os demônios em formato de riffs poderosos de guitarra, um cozinha violenta e um vocal que representaria muito bem a sucursal do inferno na Terra, a Sangria faz um som desesperado e não recomendado para quem tem fobias. Pouca gente consegue transmitir angústia, raiva, dor e barulho de forma tão intensa, apocalíptica e detonadora.
Apesar de revelação, a Sangria tem entre seus integrantes alguns nomes importantes do rock alternativo baiano. Os ex-Dinky Dau Bola (guitarra) e Pedro Bó (baixo), o ex-Úteros em Fúria Apú (guitarra) e Mauro (vocal) formam a banda ao lado de um monstro na bateria, Emanuel. Todo o clima barra-pesada criado por eles ganha maior dimensão com o vocal de Mauro, que se entrega às letras e a atmosfera, num vocal esganiçado com sangue, raiva e desespero saindo pela boca.
A banda, formada n final de 2003, marca o retorno de Mauro à frente dos vocais depois de nove anos, desde o fim da Úteros. Além de ser o front-man, ele é também o responsável pelas letras que tratam de um mundo caótico e sem esperança. “Não combina a gente falar de coisas boas. Não dá para viver na Bahia e falar de amor e alegria. Que alegria? Eu não to vendo nada de bom. Não tenho fé na raça humana”, afirma Mauro. As referências não poderiam ser outras, poetas, escritores e gente barra pesada, junkies, gente que não tem fé na vida, Nietzsche, Soudgarden, Alice in Chains e Black Sabbath. Barulho barra pesada de alta qualidade.
Junio Barreto – “Junio Barreto”

Um pé no terreiro e o outro na tecnologia. Um olho no passado da MPB e outro no que vem se transformando na nova música brasileira. Assim é o disco de estréia do pernambucano residente em São Paulo, Junio Barreto. Muito se tem feito por ai colocando a música brasileira namorando a música eletrônica. Aqui, no entanto, a eletrônica trabalha a serviço das canções, das melodias e da poética de Junio, que acompanhado de um excelente time de músicos, produz um daqueles álbuns para ir absorvendo aos poucos, até ele dominar os sensores sensíveis do corpo. Um disco que coloca o autor entre os principias novos nomes da música feita no Brasil.
Logo de início, em “Qual é Mago”, Junio solta: “Tá com saudade da praia, né nego?”. Um sambinha que dá uma pista da inspiração do autor: os ares de sua terra deixada para trás, que aparece também na capa do disco, em referências a ícones e lembranças nordestinas, como a bandeira do Central de Caruaru e o clima de interior. A referências prosseguem nas poéticas letras, sem soar como um mero neo-cordelista, mas com um toque contemporâneo de quem vive numa metrópole.
Com muita sensibilidade e capacidade de articular palavras e imagens, Junio cria uma linguagem particular nas letras. “Ontem acordei de susto / do ronco da minha barriga com fome/ Bem quando sonhava / que estava jantando / com alguns amigos bons/ Salada e camurim, cajuada aromática/ Jenipapada e alguns amigos bons”, em “Amigos Bons” ou “Ela mandou caiá/ lavar todo o terreiro/ Quis dengo de mão e samba de maracatu/ Deu rosa pa menino/ Buchada de carneiro, ê/ Só porque chegou água na torneira”, em “Oiê”, ou ainda “Raiou mais bela Flô raiou/ Num caísse de leva que seja/ Indo o céu abrir de sol/. E agora a chuvinha que cai de voada maneira/ Molha, molha o chão”, em “Do Caipora ao Mar”.
Junio dá ênfase à percussão em boa parte do álbum, como num terreiro eletrônico, mas com as batidas de candomblé se misturando a loops, samples e batidas digitais. Um passeio pela riqueza da música brasileira, com ecos de bossa-nova, melancolia, samba, Dorival Caymmi e as belas e sensíveis letras. Tudo isso sem soar retrô, muito menos soando como um vassalo dos intocáveis, ou mero refazedor do que já foi feito. Sem soar vazio em querer inventar um futuro inédito.
Como poucas vezes se viu tão bem misturado, o disco reúne nas mesmas músicas moogs, ganzás, tamborins, palmas, harpas, sampler, flautas, congas, vibrafones, pianos, tipos diversos de teclados, violões de 7 cordas, programação eletrônica. O resultado é uma música sofisticada que não soa pretensamente vanguardista, mas que, ao mesmo tempo, mostra um caminho inteligente e promissor para a música brasileira.
A Sangue Frio – “Sonetos do Asfalto”

Curtas, rápidas e certeiras. São assim as músicas da banda A Sangue Frio, uma das boas revelações do rock baiano em 2004. Eles acabam de lançar o primeiro CD (já tinham um EP lançado há seis meses), “Sonetos do Asfalto”, uma pancada sonora rapidíssima de apenas 21 minutos e trinta e dois segundos. A banda acerta no alvo nas curtíssimas doze músicas, que variam entre um e dois minutos de duração. Uma pancadaria sensível e não-gratuita, que não segue a linha hardcore tradicional do selo Estopim, responsável pelo lançamento. Fazem um som que vem sendo chamado de pós-hardcore, com peso e guitarras altas e diretas, mas com uma grande preocupação com as melodias. As influências vêm de bandas do inicio da década de oitenta de Washington DC, como Embrace, Dag Nasty e Rites of Pring, que desaceleraram um pouco o hardcore, colocando guitarras oitavadas e com letras um pouco mais pessoais. Acabaram criando o movimento EMO, bastante diferente de como é conhecido o gênero atualmente.
A Sangue Frio está mais para o som dessas bandas oitentistas do que para o que chamam hoje de Emo, apesar de também falarem de relacionamentos amorosos em suas letras. Mas vão além, com letras curtas e diretas colocam indagações e posições políticas, focadas em críticas à apatia e ao sistema, sem soar panfletário. Como em “Resignado”: “A luta se mostrou cansativa e intensa para a sua pouca força de vontade. Sua máscara logo caiu e por isso resolveu escolher o caminho mais curto, se resignar e “crescer”. Sei que tinham coisas mais importantes a fazer, trabalho, estudos, ilusão e resignação”. Interessante são os vocais de Fabiano Passos, que faz quase que simultaneamente um vocal principal melódico e gritos agudos e estridentes nos backings. É talvez a banda meio termo entre o hardcore e os sons mais indies e pop de Salvador, podendo agradar os dois lados. Grande e boa novidade do cenário local.
Djunks – “Quando tudo parecia tão ruim”

A Bahia já tem seu CPM22. Djunks é o nome da banda, que segue os passos do emo-core tão na moda no país. Estão lá todos os clichês. O vocal sem graça e sem alma, que é uma das marcas mais presentes no estilo. As letras, falando quase em 100% das vezes de desilusões amorosas, sem muita inspiração. O peso, na verdade, peso mosca, que é um disfarce, já que é o tipo de som (com aqueles riffs de sempre) para adolescente que ainda não aprendeu do que o trio guitarra-baixo-bateria é capaz. Os meninos (não passam de 23 anos) tocam bem, mas precisam ampliar as referências. O resultado mostra, no entanto, que a Bahia já tem um bom representante no emo-core, não devendo para nenhuma outra do estilo no país. Só não sei qual a relevância e importância disso. Evidente, que um disco deste gravado aqui mesmo em Salvador, com profissionais locais, mostra a capacidade de se produzir um trabalho de alto nível técnico, da capa e material gráfico (muito bons) até a gravação. A produção, a cargo de Luisão Pereira (ex-Penélope) merece destaque. Os fãs do gênero podem comprar de olhos vendados, com certeza vão gostar. Já quem não gosta pode permanecer à distância.
Narguilé Hidromecânico – “Com Gosto de Gás”

Vinda do Piauí, a Narguilé Hidromecânico faz uma mistura bem azeitada de rock, ritmos do nordeste, reggae e muita percussão, mas que chega no limite entre um trabalho interessante e a música mais comercial com pouca ousadia. Em alguns momentos a banda se perde tentando inserir elementos pop quase clichês, desde timbres óbvios até misturas pausterizadas, como se precisassem disso para atingir um público maior. Mas a junção de peso com sotaque nordestino, os passeios pelo reggae e um meio funk têm bons momentos. Destaque para os reggaes “Novo Mundo” e “Pode Ser”, a carnavalesca frevo-rock “Frevo Lição” e os bem feitos mistos de rock e sons nordestinos que remetem às misturas feitas em Pernambuco, como em “Bilãozinho Astral”, “Cabaça Dela” (com sua letra sensual dúbia), “Redondilha” e “Só Vou Mudar”. Guitarras distorcidas, zabumba, pandeiro, berimbau, caxixis, triângulo, fole, efeitos eletrônicos, pick ups, sintetizadores, histórias e termos nordestinos nas letras criam uma música sintonizada com as produções recentes feitas na região.
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quero crescer no mundo da musica e poder ser conhecida pelo brasil eu tenho muita foça de vontade tenho uma banda mas nao definimos o nome ainda quem sabe voces pode ajudar agente
Adorei mesmo o Post, acho que tudo que nos deixa mais bonito e agradavel para todos a nosso redor.