Espaço voltado para a música em seus mais diversos gêneros e estilos possíveis. Porque quem gosta de prateleira é dono de supermercado.

  • Home
  • Clipes (BA)
  • Discos
  • Espaços para show
  • Festivais
  • Podcast
  • Quem faz
  • Agenda
  • capa
  • Coletânea
  • Discos
  • Entrevistas
  • Geral
  • Matéria
  • Notícias
  • Opinião
  • pesquisa
  • Podcast
  • Shows e festivais

João Gilberto, um banquinho e um violão

Filas gigantescas, ingressos esgotados, atraso, quebra de protocolo, desdém às rígidas regras do TCA, as habituais reclamações do microfone, de barulho na platéia, do ventinho. Nada disso importa de fato. Na verdade, tudo isso só integra o pacote do mito que é João Gilberto, talvez o brasileiro vivo mais importante e um dos homens mais fundamentais da arte contemporânea no mundo hoje. Como um ritual, tudo ao redor só reforça o momento em que o baiano de Juazeiro senta em seu banquinho munido apenas de um violão e desfila uma preciosa sequência de lindas canções, a bossa-nova em sua plenitude. É ele e a música, o que realmente importa. Ontem, no Teatro Castro Alves, João Gilberto encerrou de forma esplendorosa série de shows que fez no Brasil em homenagem aos 50 anos da Bossa-nova. Não poderia ser melhor.

Com uma hora e 10 minutos de atraso e um público pacientemente esperando e já ciente que o que importava de fato na celebração era só ele, João mais uma vez fez de um show um momento mágico, sublime. Público, teatro, técnicos, imprensa, produção. Todos estavam ali porque precisavam estar e porque faziam parte do contexto, mas se não estivessem pouco interessava, o ritual era João Gilberto, apenas ele sentado num banquinho com seu violão. Timidamente ele entrou no palco às 22h09, sentou, reclamou do microfone e já lançou “Canto pra esse mundo todo, mas a Bahia é diferente. Eu fico até nervoso” e colocou todo mundo no bolso com “Saudade da Bahia”, de Dorival Caymmi. Era o começo da celebração.

Como numa missa, um ritual religioso, o público permanecia quieto, absorto, como diante de uma entidade, todos respeitavam os caprichos, as exigência do mito João Gilberto, ninguém cantava junto, ninguém conversava, ninguém fazia nada, apenas venerava aquele momento de iluminação. “13 de Ouro”, “Chove Lá Fora”, “Rosa Morena”, “Este Seu Olhar”, “Morena Boca de Ouro”, “Da Cor do Pecado”, “Desafinado”, “Não Vou Pra Casa”, “Corcovado”, “O Pato”, “Ligia”, “Retrato Em Branco e Preto”, uma das mais emocionantes da noite, “Bahia Com H”, “Chega de Saudade”, “Wave”, “Caminhos Cruzados”, “Você Não Sabe Amar”, entre outras. Um total de 33 canções.

A delicadeza com que trata cada música é impressionante. Dedicava canções para amigos, se emocionava com outras, ressaltava como era linda aquela outra e em três oportunidades, como que querendo ressaltar sua beleza, voltava a cantar e tocar a mesma canção. Em “Estate”, música em italiano de Bruno Martino e Bruno Brighetti, voltou a tocá-la traduzindo partes e mostrando como era magnífica. Uma aula, aula de música, de dedicação, de sentimento.

João parece existir para se deleitar com a música, para tocar seu violão, em seu canto, sossegado. Normalmente faz isso em seu apartamento, em longos “ensaios” que muitos tratam como obssessivos e até chatos. Um absurdo. É como os deuses podem se dedicar a encantar os súditos. Tudo apenas para poder desfilar sua genialidade em poucas e cada vez mais raras apresentações que merecem todos os adjetivos superlativos. Maravilhoso. Inesquecível. Incrível. E por ai vai. Deveriam inventar uma classificação específica para ele: “João Gilbertiano” quando algo ultrapassasse o nível humano de excelência e alcançasse um patamar divino. Mais uma vez foi assim, num show disputado e com um público diverso que quase de joelhos se rendia a um mestre em atuação.

Duas horas e vinte minutos de êxtase silencioso, de catarse coletiva. Tirando a sinfonia de tosses do público, que em um momento o fez assumidamente errar “Meditação” e perguntar bem humorado se alguém tinha levado xarope. A tensão que todo show de João tem, dele poder encerrar show no meio, ir embora ou de ficar lamuriando do barulho ou de outra coisa, levava o público a se divertir com as pequenas reclamações. Fazia parte, não poderia deixar de ter, afinal, é João Gilbero, um mito, e ele pode tudo. Bem humorado como estava, não bradou quando pediram para aumentar o som, só ressaltando que numa orquestra a tuba fica lá quieta no meio dos outros instrumentos e ninguém pede para aumentar. Ou quando se divertia com o pedidos de músicas para tocar, inclusive atendendo alguns.

Durante alguns minutos aplaudido de pé, encerrou o show para voltar para um biz de seis músicas, com o público se levantando e se aproximando do altar, venerando João. Como se estivessem naquelas sala de apartamento de Copacabana nos anos 50, sentaram no chão e viam como um mestre consegue hipnotizar 1.500 pessoas e transformar o que seria um show histórico, numa celebração sensível, delicada e magnífica da música brasileira. Assistindo ele tocar é fácil entender porque João Gilberto é venerado em todo planeta. Ele colocou a música braisleira em outro patamar, continua levando o samba, a musicalidade brasileira, para outra esfera, apenas ele, seu violão e um banquinho. A Bahia pôde assistir ontem um de seus filhos mais fantásticos provar que a sensibilidade e a delicadeza está acima de tudo. João fez história e continua fazendo.

  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  

Partilhe no Facebook!

Comments (4)

 

  1. má disse:
    6 de setembro de 2008 às 12:37 pm

    Belíssimo texto. Fiquei emocionada. Parabéns!

  2. dj gordo disse:
    7 de setembro de 2008 às 12:22 am

    voltei no tempo agora!
    o homem é foda, né?!

  3. Jane disse:
    7 de setembro de 2008 às 3:11 pm

    Eu que nem sou fã, fiquei com vontade de ter visto.

  4. Eduardo disse:
    8 de setembro de 2008 às 10:08 am

    Belo texto, um resenha escrita com o coração.

Leave a Reply

Clique aqui para cancelar a resposta.

el Cabong TV

Notícias

  • :: Com queda dos CDs, músicos do passado lideram vendas
  • :: Como se ouve música hoje
  • :: Empresa de cosméticos banca discos de MPB
  • :: Festivais no Brasil: dilemas, dificuldades e o que pode melhorar
  • :: Jack White diz que White Stripes pode voltar a tocar

Quem faz

Luciano Matos lubmatos@gmail.com

Jornalista, blogueiro e DJ. Nascido em Salvador em 1974, há mais de dez anos atua na cobertura do cenário musical baiano e brasileiro, especialmente o chamado mercado independente.

Saiba mais

Anúncios


Agenda Salvador

veja a agenda completa

SETEMBRO

  • Dia 06
    * Manuela Rodrigues - Sala do Coro
  • Dia 09
    * Vivendo do Ócio - Pelourinho
  • Dia 10
    * Baiana System - Espaço Unibanco
    * brincando de deus - Groove Bar
  • Dia 11
    * Debate (SP), Pessoas Invisíveis, Tentrio e Jonas - Irish Pub
    * FacomSom - Você me Excita, Maglore, Enio e a Maloca e Ministereo Público - Faculdade de Comunicação - UFBa
    * Maglore e Acord - Tom do Sabor
  • Dia 12
    * Otto, Do Amor e Ministério Público - Concha Acústica
  • Fotos

    Mais fotos

    Irmãos da BailarinaThe Dead RockThe Dead Rock - Feira da Música - Luciano MatosSka Maria Pastora2 - Feira da música

    Assuntos

    Bahia bandas beyoncé brasil cd clipe clipes disco Discos dois em um download festivais festivais independentes independente internet lançamento mercado messias mp3 música música brasileira música independente nancy nordeste o círculo otto pop programação Radiola retrofoguetes revistas rock rock independente salvador show shows shows internacionais tca turnê vendo 147 video clipes vivendo do ócio vídeo clipe vídeoclipes wilson simonal

    Popular Posts

    • Projetos agitam Salvador

      Agitam, mas a qualidade das atrações nem sempre valem a pena. Vale a pena, no entanto, para conehcer algumas coisas e ...

    • Boom! Bahia! Boom!

      O rock baiano já havia feito às pazes com o Carnaval, do qual tem uma interseção que o enorme sucesso da Axé Music ...

    • Tava pensando....

      O que faz um artista ser importante hoje no mundo da música? Lançar um CD? gravar um DVD? tocar na rádio? vender muit...

      RSS RSS

      • Salvador é mesmo carente de shows internacionais?

      Últimos posts

      • Salvador é mesmo carente de shows internacionais?
      • Goteiras da música baiana
      • Por quatro dias, Fortaleza foi o centro da música independente brasileira
      • Confira mais clipes da produção atual da música brasileira
      • Festivais 2010

      Sites

      • - Drop Music
      • - Eittanoise
      • - Muzplay
      • - Omelete
      • - Pedro Alexandre Sanches
      • - Pop Up
      • - Recife Rock
      • - Rock Press
      • - SambaPunk
      • - Setaro´s Blog
      • - Trabalho Sujo
      • - Urbe
    © 2010 :: el Cabong :: | Theme Design by Dannci | Login
    Podcast Powered by podPress (v8.8)