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Teve de tudo nos dois últimos dias do Festival Suiça Baiana

Rap, punk, country, metal, blues, rock e até axé retrô dividiram as atenções do festival em Conquista

A segunda e terceira noite do Festival Suiça Baiana, em Vitória da Conquista, mostraram uma mistura de estilos musicais que resume um pouco como anda a música brasileira contemporânea e como os festivais funcionam como vitrine para essa produção diversificada. Fora da Bahia, no entanto, dificilmente seria possível se ouvir num mesmo evento rap, rock, swing, mpb, metal, punk, blues, country misturados com axé music. Dizem que tudo acaba em Carnaval na Bahia, nem tudo, mas se der chance faz diferença, mesmo num evenbto essencialmente rock. Num festival independente a mistura já é comum, mas o surpreendente é justamente a banda que faz a tão odiada música carnavalesca baiana como um dos principais destaques. Mas teve também country rock, rock vintage e punk para equilibrar e mostrar que, ufa, nem só de carnaval vive a Bahia.

A Suinga tem pouco mais de um ano de formada e resume bem os novos ares da música feita na Bahia. Deixando de lado os preconceitos, a banda tem mostrado que é possível fazer a tal axé music, ou algo próximo disso, se peocupando com qualidade, boas composições e mantendo a diversão como norte. O show em Conquista foi uma boa mostra disso e o público entendeu. OA atmosfera sisuda prsente no universo do rock e rap foi colocada um pouco de lado e todo mundo caiu no carnaval com a mescla de frevo, fricote e até quebradeira que a Suinga promove. Delírio do público e uma banda caminhando para virar algo grande.

E o formato de dois palcos em festivais, um colocado ao lado do outro, nunca deve ter visto uma passagem de uma banda para outra tão empolgante. A participação dos integrantes da Pirigulino Babilake no show da Suinga foi só a senha e assim que terminou o show de uma num palco começou o da outra ao lado, com as bandas correndo de um pra o outro palco, sem intervalo, sem deixar a música terminar e levando o público junto. Na sequência engataram um pot-pourit improvisado começando com música da Suinga e indo parar em clássicos da axé music, com “Protesto Olodum (E Lá Vou eu)”, “Alfabeto do Negão” e “Depois que o Ilê Passar (Não me Pegue não me Toque)”, com presença até do pessoal da Versu2. Sim, por instantes virou Carnaval.

A Pirigulino é competente, faz bem o que se propõe, um misto de mpb pop poética, com algumas doses de rock, mas é correta até demais, certinha demais, inofensiva demais. O número exagerado de covers (ampliado devido ao pedido de prolongamento do show) revela que a banda poderia melhorar mais o repertório próprio, cheio de exageros e clichês. O show no festival foi assim, correto, com bons momentos, parte do público recebendo bem, mas que não marcou.

Mas insossa  foi a banda Talma & Gadelha, do Rio Grande do Norte, que se apresentou pouco antes e pareceu sentir o palco grande. O grupo fez um show acanhado, mesmo com algumas boas músicas que revelam uma influência de rock brasileiro e jovem guarda.

O oposto disto foi a carioca Canastra. Dando mais uma vez mostra de como saber fazer um bom show. Evidente que a sonoridade vintage que flerta com surf music, rockabilly, swing, ska ajuda. A estratégia de inserir sonoridades conhecidas, desde a abertura com temas de cinema até hits mundiais, como “In the Mood”, também colaboraram. O resultado não poderia ter sido outro e o clube D’Waler virou uma grande pista de dança com direito a trenzinho e poeira subindo. A banda Ladrões de Vinil também fez bem o papel de animar a plateia com seu rock’n'roll direto, divertido e bem feito. Ponto para o rock local.

O rapper Emicida fechou a segunda noite pra mostrar porque é um dos maiores homes do hip hop nacional na atualidade. Talvez seja mesmo, mas num festival, com várias bandas de estilos diversos e num formato com palco maior não encaixou tão bem. A formação DJ e MC é clássica no rap e funciona num ambiente próprio, mas não tão bem nas condições do festival. Fechando o segundo dia do evento, Emicida soube dominar o palco com sua metralhadora de rimas, a base apenas das batidas do DJ, mas em pouco tempo se tornou cansativo.

Último dia
Domingo era noite das camisas pretas e de rock pesado. No meio punk rock e metal, porém, houve também espaço para o velho blues, seja com a banda local Distintivo Blue, seja com a Clube de Patifes, de Feira de Santana. Esta última fazendo uma interessante intersecção do blues com o forró, transformando músicas de Dominguinhos e Trio Nordestino em autênticos blues. Como disse o vocalista Pablues, unindo os rios Mississipi e São Francisco.

Era domingo, dia de missa e culto religioso para alguns, mas para o público presente no festival, dia de exorcizar os demônios, ou que quer que seja, balançando a cabeça. As bandas cearenses Clamus e Facada fizeram bem o papel de “pastores” com porradas trash e death metal de responsa, enquanto a carioca Maldita mandava um metal em português, menos berrado e mais conceitual, com doses de eletrônica.

Mas a noite tinha também punk rock, com uma banda local veterana e outra nacional já clássica. A local, Cama de Jornal, faz um dos shows mais low profile que deve existir. Punk rock na veia, rápido, acelerado, com letras críticas e um dos vocalistas mais figuras que o rock pode ter. Inspirado, soltando comentários hilários, ele mostrou que ainda dá pra ser punk, divertido e sincero nos tempos de hoje. Não sobra para niguém, ele sacaneia todo mundo, até ele mesmo, a banda e o público. Nem alguns clichês usados desde os anos 80 faz a banda perder a graça. Deveria ter muito mais bandas assim por ai, sem pose, sem grande pretensões, apenas vontade de dizer o que pensa e se divertir com o rock. O Ratos de Porão já foi tudo isso, e mesmo com 31 anos nas costas ainda é pura porrada, divertida, rápida e com o mais puro punk ácido se esbarrando com o hardcore. Ainda sabem fazer um show marcante.

Quem chamou mais atenção na noite, no entanto, foi a banda paranaense Hillbilly Rawhide. Com um country rock primitivo, como gostam de definir, fizeram um dos shows mais divertidos e surpreendentes do festival falando de bebedeira, vilões, cavaleiros da morte e por ai vai. Mesmo com a ausência do pianista, mandaram muito bem ao vivo com baixo acústico e violino dando uma sonoridade especial. Direito a cover versão country de Ratos de Porão e  Motorhead para delírio dos presentes. O receptivo público de Conquista não poderia deixar por menos e fez show a parte entrando no clima fazendo todo tipo de dança. A banda saiu ovacionada e mesmo numa noite que metal e punk sairam como uma das mais elogiadas de todo festival.

Balanço
Em três noites de festival, o Suiça Baiana recebeu cerca de 900 pessoas por dia (grande parte bastante jovem), para assistir 26 bandas de nove estados brasileiros. Público que também veio de cidades próximas. Com uma organização caprichada, que acertou no local dos shows, confortável e agradável, mas que talvez pela distância do Centro tenha deixado de atrair um público maior, o festival se mostrou com potencial para se fixar na agenda de eventos independentes do estado. Com espaço para feira de discos e mershandising de bandas, estrutura de dois palcos e logística satisfatória o festival teve uma primeira edição de mais acertos do que erros, podendo melhorar mais nas equalizações de som para as bandas, e, apesar da excelente grade, pode pensar melhor também na ordem das bandas.

Importante falar chamar atenção também para quem ainda não entendeu a dinâmica do Circuito Fora do Eixo – que não é de forma alguma a salvação para a música brasileira, mas é sem dúvida um caminho fundamental para parte dela -, festivais como esse comprovam que o trabalho coletivo proposto pela organização rende muito e tem um papel primordial em potencializar e viabilizar a produção independente em locais menos consolidados. Parte dos responsáveis pela produção do Festival Suiça Baiana foram de outros estados bancados pelo FDE e contribuiram para a organização do festival e para mobilização dos envolvidos. Em um momento em que ainda busca-se rumos para o mercado de música, o Fora do Eixo mostra que pode contribuir muito para ele, inclusive ajudando a formatar uma cena numa cidade com pouca tradição musical. Diante da polêmica promovida por quem parece assistir a tudo isso a distância, como mostrou o artigo do jornalista Álvaro Pereira Junior, ver as coisas acontecendo de perto e perceber a evolução do cenário, obriga a ressaltar que algo está acontecendo de diferente e, mesmo, com falhas é necessário o reconhecimento.

Fotos de Arthur Garcia

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Tags:Canastra, Emicida, festival, suíça baiana, Suinga

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Comments (2)

 

  1. Nem, Cama de Jornal disse:
    1 de novembro de 2011 às 5:36 pm

    Valeu, véio…ficou bacana a resenha, acho que conseguiu captar o que queremos passar com nosso som…só não entendi o que é esse negócio de low profile…eheheheh…será se é algo bom??? kkkkkk
    Brigadão pela força, e tamo aí!!!
    punk rock de conquista!!!
    sempre!!!

  2. Eduardo disse:
    8 de novembro de 2011 às 12:46 am

    Porra, invejinha de você que foi…estava louco pra ver Emicida, Facada e Ratos!!!!

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