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Abril Pro Rock – Ainda relevante

Difícil imaginar um festival se manter por quase 20 anos e ainda dialogar com o público jovem e, mais, conseguir ainda levar um bom público para ver shows de artistas que mal tocam nas rádios. Mesmo com as mudanças do mercado de música e de todas as dificuldades em se fazer uma programação que não caia na mesmice, o Festival Abril Pro Rock, em Recife, ainda consegue ser um dos momentos interessantes da música brasileira. Se em outros tempos foi o lugar para conhecer a fértil cena pernambucana ou celeiro para revelações nacionais se mostrarem para gravadoras, o festival pernambucano mudou, mas continua sendo relevante. Na edição 2011, o APR continuou apostando num formato que vem dando certo nos recentes anos: espalhar uma programação de shows durante todo mês, através do APR Club, com atrações locais e de outros estados, e focar os principais artistas em duas noites bastante distintas, uma de rock pesado e a outra de diversidade de estilos e menos rock.

Foi assim no fim de semana de semana retrasado no Chevrolet Hall. A sexta-feira (em que não podemos comparecer) voltada para o rock pesado, com bandas de metal e seus derivados, hardcore e punk rock. Para cerca de 5 mil pessoas, as principais atrações foram as bandas norte-americanas The Misfits e D.R.I., além das paulistas Musica Diablo e Torture Squad. Completaram a programação da noite as bandas Violator (DF), Desalma (PE), Facada (CE) e Cangaço (PE) .

Se nessa primeira o clima e o visual eram ditados por um público adolescente, especialmente garotos, vestidos de preto, a segunda noite, realizada no domingo, tinha uma quantidade de público quase igual, mas uma atmosfera totalmente diferente. Colorido, alto astral, casais, turmas de garotas e garotos, roqueiros, moderninhos, ripongas e toda variedade da fauna jovem local. Uma turma mais diversa e aberta a sonoridades mais, digamos, brasileiras. Com exceção da banda paulista Holger, todo mundo agora cantava em português e no mínimo tinha uma pegada brasileira em seu rock. Não por acaso, a piada do hype do momento em São Paulo parece que não funcionou fora do habitat natural. A Holger, que tem mais no discurso do que na música traços de brasilidade, fez um show quase constrangedor. Sabe quando alguém se acha muito engraçado e usa todo seu repertório de piadas e assim mesmo ninguém ri? Foi essa a sensação. Tanto que um dos vocalistas chegou a perguntar?  “Alguém aqui já conhecia a gente?”. Bem poucos e o resto parecia não fazer muita questão. Sem um estofo musical mais rico, o show acaba se tornando enfadonho. Nem um cover do Pixies salvou, pelo contrário, só ajudou a piorar as coisas

O problema nem era implicância com hype vindo de São Paulo. A cantora Tulipa é uma das sensações de 2009, mas com muito mais consistência e uma música mais rica. Nem se incomodou com a chamada do festival apresentar por Karina Buhr na hora de seu show. Sem perder a deixa e o bom humor, começou entoando “Eu sou uma pessoa má, eu menti pra você…”, da cantora pernambucana. Se Tulipa é hype, mostrou que tem algo mais do que burburinho em cima dela. Praticamente com apenas músicas de seu único disco, dominou o público e mostrou porque vem sendo tão falada. Equilibrando uma bela voz, domínio de palco com performance bem particular e um repertório com suas canções pop brasileiras certeiras, fez um lindo show. Com Marcelo Jeneci criou um dos momentos mais bonitos da noite, emocionando com “Dia a dia, lado a lado”.


Vídeo cedido pela revista eletrônica O Inimigo

Logo em seguida, outra cantora também mostrou de outra forma porque tanta badalação. Karina Buhr fez sua história cantando e tocando na Comadre Fulozinha. Ali era doce, quase angelical com seu tamborzinho. Na carreira solo fez o que poucas cantoras no Brasil fazem, chutou o balde e se tornou uma cantora visceral. Com uma banda absurda (Fernando Catatau e Edgard Scandurra duelando nas guitarras, pra vocês terem uma idéia), ela não faz o tipo doce, meigo e que se preocupa em cantar certinho, afinado e sem erros. Se joga no chão, grita, corre, dança, se utiliza de todo o palco, inclusive de elementos dele, para interpretar sua música. O figurino nem um pouco comportado é só um tempero a mais. Uma mulher agindo daquela forma, cantando que mentiu para o amado, gritando “Dorme logo antes que você morra!” é no mínimo provocativo. O melhor que tudo aquilo funciona. Incomoda, o que é ótimo. Até constrange às vezes, mas é muito bom ver uma cantora saindo do seu papel de mulher comportada ou de diva e errando, ficando ofegante, desafinando, mas se mostrando real e ótima no palco. Grande show.

Antes das duas cantoras já havia passado pelo palco duas das três bandas pernambucanas da noite, as representantes da nova música pernambucana. Apesar dos bons shows e de mostrarem que têm potencial para algo mais, Feiticeiro Julião, ganhadora do Concurso Bis Pro Rock, que serviu de seletiva para o festival, e Mamelungos não honram, pelo menos ainda, as gerações anteriores do cenário musical pernambucano. A primeira mostra um rock calcado nos anos 70, com boas referências tanto do rock gringo do período quanto da música nordestina psicodélica feita naquela época. Já o Mamelungos, bem mais madura, passeia por vários ritmos, lembrando em alguns momentos o Los Hermanos, em outro lançando um frevo ou um samba. Sopros, cavaquinho, guitarra convivendo e um clima bem interessante. Ainda pode render. São, no entanto, apenas boas bandas, com trabalhos interessantes, mas sem (ainda) um elemento a mais. Aliás, esse é um problema vivido pela cena pernambucana. De onde já saíram nomes como Chico Science, Nação Zumbi, Mundo Livre S/A, Mestre Ambrósio, Otto, ou até Jorge Cabeleira ou a Volver, poucos nomes dos que têm aparecido nos últimos anos fazem a diferença.

Não por acaso, o festival teve que levar de volta a seus palcos uma das bandas atuantes mais antigas do cenário local, a Eddie. Com quatro discos lançados, o grupo aproveitou para desfilar seus hits da longeva carreira de mais de 20 anos para um público bastante fiel e que sabia tudo de cor. Abriram o show com “Quando a Maré Encher”, sucesso com a Nação Zumbi, e seguiram com “Vida Boa”, “Baile Betinha”, “Na Beira do Rio”, “Não Vou Embora”, entre outras. Com astral altíssimo e uma banda visivelmente feliz com a volta ao festival, fizeram um show especial, bonito e competente, que contou com participação de Roger Man, Karina Buhr e Erasto Vasconcelos, alguns dos artistas que giram em torno do universo do grupo, o Original Olinda Style.  Melhor momento pernambucano do APR de longe.

Presença estrangeira


Se o Abril Pro Rock hoje não mais revela tantos nomes como antes e, infelizmente, não consegue, como já fez, mesclar de forma tão radical numa mesma noite sons tradicionais, rurais, urbanos, guitarras, percussão, pop, tradição e novidades, ainda encontra ótimos caminhos para a sobrevivência. Além de reunir os principais destaques recentes da música brasileira, seja rock ou não, tem trazido para o Nordeste alguns dos shows gringos relevantes e que é possível incluir num festival deste porte. Se já recebeu nomes como Motorhead, Asian Dub Foundation, Stephen Malkmus, Jon Spencer Blues Explosion, The Charlatans, New York Dolls, entre outros, esse ano, além do The Misfits e D.R.I., outra lenda internacional passou pelos palcos do APR, o Skatalites. Direto da Jamaica, o grupo trouxe o clima do reggae e do ska, numa daquelas vibrações típicas da terra de Bob Marley. Com uma banda mesclando  jovens músicos e alguns dos  fundadores, como o baterista Lloyd Knibb, de 80 anos de idade, o Skatalites botou todo mundo para dançar, num clima sensacional, começando com músicas instrumentais para logo receberem Doreen Shaffer, aclamada como a “rainha do ska”. Foi certeiro e a festa ficou ainda melhor, em mais um show marcante no Abril Pro Rock. A outra atração estrangeira da noite também agradou. Mesmo sendo desconhecida, a norte-americana Chicha Libre conseguiu se encaixar bem na noite com o ritmo gostoso da chicha peruana, um parente próximo da cumbia colombiana.


Vídeo cedido pela revista eletrônica O Inimigo

O nome mais conhecido para o público que esteve  no festival era o de Arnaldo Antunes. E assim como no ano passado com o Pato Fu, Arnaldo mostrou como a experiência ainda faz diferença. Com um show focado no seu último e excelente álbum, Iê Iê Iê, e com uma banda sensacional, que contava, entre outros, com Edgard Scandurra nas guitarras, Curumin na bateria e Marcelo Jeneci nos teclados, o cantor fez um showzaço. O repertório mesmo não sendo ainda conhecido da maioria contribuiu. O clima misto de rock,  jovem guarda e música brega seduziu com músicas irresistíveis como “Invejoso”, “Vem cá”, “A Casa é Sua”, “Consumado” e “Envelhecer”, cantado ao lado do autor parceiro de Arnaldo, o pernambucano Ortinho. Vibrante como de costume, Arnaldo desceu para cantar no meio do público, estratégia que muitos usaram no festival, mas só com ele realmente funcionou. Ainda deu para encaixar uma versão de “Quando Você Decidir” de Odair José e encerrar com uma versão, não tão boa, é verdade, de “Vou Festejar”, de Jorge Aragão, que valeu pelo astral favorável. Com tantos bons shows para um ótimo público e aquele clima de encontros de pessoas, músicos, produtores e quem faz música, não dá para negar a importância do Abril Pro Rock.  Se não mais como um oásis em Pernambuco e no Nordeste, mostra que ainda assim é relevante.

Luciano Matos viajou a convite de um dos patrocinadores do evento, o chocolate Bis.

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Tags:abril pro rock, Arnaldo Antunes, eddie, Holger, Karina Buhr, recife, skatalites, Tulipa

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Comments (4)

 

  1. Zé Henrique disse:
    26 de abril de 2011 às 11:19 pm

    Assino embaixo do texto, Luciano.
    Sem nenhum senão, o que é difícil.
    Há uns 3/4 anos achava que o melhor pro festival seria acabar – tava passando vergonha.
    Inesperada e bem vinda essa retomada dele, acho que no ano que vem com o mote dos 20 anos será ainda melhor.
    Realmente, faz tempo que não aparece um artista/banda de fato relevante em PE. A geração Chico Science tinha um nível de qualidade que não se repete assim facilmente.
    É coisa que acontence de tempos em tempos.

    PS: Conseguiu comer só um bis? rsrsrrsrs

  2. :: el Cabong :: » Entrevista – Talles Lopes, a Abrafin e os festivais disse:
    28 de abril de 2011 às 4:54 pm

    [...] em relevância do Abril Pro Rock, aproveitamos para levantar a questão sobre a relevância dos festivais. Ainda cabe espaço para [...]

  3. Vince disse:
    30 de abril de 2011 às 10:55 am

    Não tenho dúvida que Abril ainda tem relevância ,assim como os outros Festivais do Brasil. Eles promovem encontros artísiticos, ‘são plataformas de informação e moblização, potencializam circulação com desdobramentos para shows, inclusive, em casas o que os levam a ser catalizadores da engrenagem da nova cena. Tem problemas? Com certeza, mas ainda são os principais meios de difusão.
    Abs!

  4. Eduardo disse:
    28 de maio de 2011 às 11:35 am

    Porra, escrachou tanto o Holger que me sinto feliz em não ter ficado pro domingo, aliás não tão feliz assim porque perdi o Skatalites, mas pelos demais artistas realmente o domingo não merecia minha presença, mas a sexta foi bruxosa!!!

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Jornalista, blogueiro e DJ. Nascido em Salvador em 1974, há mais de dez anos atua na cobertura do cenário musical baiano e brasileiro, especialmente o chamado mercado independente.

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